A guerra entre artistas pela cor preta mais intensa já criada

Anish Kapoor tem exclusividade no uso do material mais preto que existe — mas foi banido de usar outros, como o "rosa mais rosa"

Em 2014 a empresa Surrey NanoSystems divulgou a criação de uma substância declarada como a cor preta mais intensa já criada pelo ser humano. Chamado de Vantablack, o material não é exatamente uma tinta ou pigmento, é um conjunto de nanotubos de carbono que absorvem 99,6% de toda luz recebida, capaz de camuflar qualquer forma ou textura de um objeto. Em 2016, o artista Anish Kapoor recebeu os direitos de exclusividade para o uso desse material em obras de arte  — consequentemente, enfurecendo toda a comunidade artística.

Anish Kapoor, Descent Into Limbo. Havana, 2016. Foto por Paola Martinez Fiterre, da Galeria Continua.

Artistas de todo o mundo criticaram a decisão da empresa de licenciar o produto apenas a Kapoor. Shanti Panchal, artista indiana-britânica, foi uma das que criticaram Kapoor em entrevista: “Eu nunca vi nada tão absurdo. Na área criativa, ninguém deveria ter um monopólio.”

Pinkest Pink

A polêmica, porém, inspirou o artista Stuart Semple que, ao saber do monopólio de Vantablack, decidiu lançar o “Pinkest Pink”: uma tinta rosa fluorescente desenvolvida por ele para ser “o rosa mais rosa de todos os tempos”, e disponível a todos, MENOS Anish Kapoor.

“Pinkest Pink”. Foto: Culture Hustle

A ideia de lançar o Pinkest Pink com a clara proibição a Anish Kapoor surgiu como uma espécie de performance artística em protesto. Ao fazer o pedido de compra no site, o comprador deve confirmar que “não é Anish Kapoor, nem é, de forma alguma, associado a Anish Kapoor, ou está comprando em nome de Anish Kapoor.” O objetivo, ele diz, é que a tinta nunca chegasse às mãos de Kapoor.

O sucesso foi imediato, milhares de pedidos inesperados feitos por pessoas interessadas em comprar o Pinkest Pink chegaram de toda parte do mundo. A hashtag #sharetheblack (“compartilhe o preto”) também foi adotada pelos críticos de Kapoor e, agora, apoiadores de Stuart Semple.

Ao final de 2016, porém, Anish Kapoor postou em seu Instagram uma foto com seu dedo do meio mergulhado no rosa mais rosa e a legenda “up yours #pink” (uma gíria em inglês que poderia ser traduzida como… “dane-se”, se quisermos uma tradução mais leve).

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Up yours #pink

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Black 1.0 e Black 2.0

Em resposta à postagem de Kapoor no Instagram, Semple lançou outras criações: uma tinta que muda de cor, um “glitter” feito com partículas de vidro que o torna mais brilhante do que o glitter comum, e outras “cores mais coloridas” — todas, lembre-se, proibidas a Anish Kapoor.

Embora a performance de retaliação ao vender produtos exclusivamente proibidos a Kapoor estivesse fazendo muito sucesso, artistas ainda não tinham acesso ao “preto mais preto”, pivô de toda a polêmica. Stuart Semple decidiu, então, tentar produzir sozinho uma tinta tão preta quanto o Vantablack. Em 2017, Semple lançou a tinta “Black 1.0” que, nas palavras do artista, “era OK”, mas não era o ideal — precisava ficar ainda mais preto.

Semple enviou para mil artistas e outras pessoas interessadas no projeto a base utilizada para criar “Black 1.0”, pedindo sugestões para melhorá-la. A primeira mudança significativa foi trocar sua substância “matificante”, que era branca, para matificantes transparentes utilizados pela industria de cosméticos. Além disso, ele também aumentou a proporção de pigmento preto. O resultado ficou bem próximo do objetivo e foi lançado com o nome “Black 2.0“: “Você pode usá-la para pintar, é atóxica e acessível. E, sem brincadeira, tem cheiro de cereja.”

(Nas imagens, em ordem: tinta que muda de cor, glitter mais brilhante, Black 2.0)

Black 3.0

Embora o resultado de Black 2.0 tenha sido satisfatório e, até o momento, ser a tinta mais escura já criada (lembrando que o Vantablack é a substância mais escura, mas não é uma tinta), Stuart Semple criou um financiamento coletivo online para conseguir prosseguir com suas pesquisas e, finalmente, alcançar o preto mais preto possível.

Assim, em 2019, após dois anos de pesquisa, foi apresentada sua nova criação: Black 3.0, a tinta mais escura do mundo. Semple afirma que a tinta agora absorve até 99% da luz, apenas 0,96% a menos do que a Vantablack, e com muito mais vantagens. Isso porque, ao contrário da Vantablack e outras substâncias similares que utilizam nanotubos de carbono e passam por um processo caro e complicado para serem aplicadas a objetos, a Black 3.0 e suas versões anteriores são tintas de verdade, muito mais baratas (entre 11 e 25 libras), e de fácil aplicação, ou seja, qualquer pessoa pode usar.

Menos, é claro, Anish Kapoor.

Black 3.0 aplicada à escultura
1. Pegue o tubo – 2. Abra a tampa com as mãos – 3. Retire a tinta – 4. Molhe o pincel na tinta – 5. Pinte algo com o pincel e a tinta – 6. Espere secar – 7. Mostre para todo mundo *Menos ao Kapoor

Links:
● Para conhecer mais sobre o projeto da Black 3.0
● Loja de Stuart Semple
● Mais sobre a Vantablack

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