Como interpretar arte com crianças

Estimular a observação de arte em crianças desde a idade pré-escolar pode trazer inúmeros benefícios na infância.

Por Thayná Rodrigues

A internet é repleta de sites que ensinam brincadeiras e atividades artísticas para se fazer em casa com os filhos, porém pouco se fala sobre a prática de apenas observar e falar sobre arte com as crianças.

Muitas vezes a falta de tempo para fazer visitas a galerias torna-se um empecilho para os pais e responsáveis, além de outros fatores como o receio de não saber por onde começar ou como abordar o assunto de forma que desperte o interesse nos pequenos.

Jan Van Eyck, “The Virgin and Child”, 1433. National Gallery of Victoria

No entanto, é altamente encorajado que crianças tenham contato com arte o quanto antes¹. Estudos mostram que estudar arte não apenas melhora habilidades como leitura e raciocínio lógico, mas também promove a criatividade, sociabilidade, desenvolvimento da personalidade e uma melhora na auto-estima dos jovens². Além disso, introduzir as crianças no mundo das artes estimula o aprendizado sobre o mundo e sobre si desde os primeiros anos de vida.


Então, por onde começar?

No capítulo sobre pré-impressionismo do livro “Isso é Arte?“, de Will Gompertz, o autor inicia com uma cena que presenciou no Museu de Arte Moderna em Nova Iorque (MoMA) e que pode nos dar uma boa ideia de como o primeiro contato, sobretudo pessoalmente, pode mudar significativamente a percepção de uma criança sobre arte. Gompertz narra no livro a experiência única de um garoto ao se deparar pela primeira vez com um dos quadros de Monet, incentivado pela mãe. A mãe, cobrindo os olhos do menino, o levou para muito perto da tela e perguntou o que via. “Não consigo ver nada. É tudo um borrão“, respondeu o garoto.  E assim, a mãe rapidamente o afastou da tela uns três metros e repetiu a pergunta. Vendo a inesperada paisagem que surgiu a partir daquele borrão, ele prontamente respondeu: “Isso é incrível, mãe!

Detalhe de “Water Lilies” (1914–26), por Claude Monet. MoMA
Claude Monet, “Water Lilies”, 1914–26. Monet Gallery, MoMA

Aos pais que não têm fácil acesso a obras de arte ou simplesmente não têm certeza sobre levar os filhos a exposições, a professora de Educação Artística, Cindy Ingram, afirma que os primeiros passos não precisam necessariamente serem em museus e galerias. O contato com a arte pode ser feito em casa, através de livros ou computadores – o importante é que a criança tenha acesso a obras que chamem sua atenção e gerem perguntas. Quadros com um forte apelo narrativo como, por exemplo, Las Meninas de Diego Velázquez, são um bom ponto de partida.

Diego Velázquez, “Las Meninas”, 1656. Museu do Prado, Madrid

Com as obras selecionadas, o que falar?

Para especialistas, a recomendação é confiar na criança e seguir sua liderança na hora de discutir o tema. Algumas perguntas-chave, porém, podem ajudar no desenvolver da atividade:

  • O que você está vendo?
  • Do que você mais gostou?
  • Quais cores/formas você vê na imagem?
  • O que você acha que está acontecendo nessa imagem?
  • O que você acha que o personagem está pensando/sentindo?
  • O que você acha que o artista estava pensando/sentindo?
  • Você acha que consegue imitar algum dos personagens?
  • O que você acha que acontecerá depois [na história]?

Não há certo ou errado, nem há necessidade de corrigir ou explicar as obras, o importante é que a criança sinta-se a vontade para explorar as figuras, expressar sua criatividade e exercer seu próprio julgamento, dando início a sua trajetória no mundo da arte.

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Fontes:

Professora Cindy Ingram, no Art Class Curator
¹ Pesquisa sobre controle emocional em crianças e a arte, por National Endowment for the Arts (Em inglês)
² Ensinando empatia através da arte, por Lysa Heslov em HuffingtonPost (Em inglês)


Bônus – 10 obras para começar:

1. Tarsila do Amaral, “Abaporu”, 1928.

2. Hashimoto Chikanobu, “Crianças brincando na neve”, 1887. Metropolitan Museum of Art

3. Mary Cassatt, “Summertime”, 1894.

4. Frida Kahlo, “Autorretrato com Macacos”, 1943. Coleção de Jacques e Natasha Gelman

5. Claude Monet, “Camille Monet e criança no jardim”, 1957. Museu de Belas Artes de Boston

6. Edward Hopper, “Cape Cod Evening”, 1939.

7. Tarsila do Amaral, “Família”, 1925.

8. Paul Cézzane, “Hortência amamentando”, 1872.

9. John French Sloan, “Sunday, Women Drying Their Hair”, 1912.

10. Vincent Van Gogh, “A Sesta”, 1889-90. Musée d’Orsay

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