Como “Os Girassóis” de Van Gogh poderiam eventualmente mudar de cor

O quadro, que atualmente está em restauração, poderia se tornar verde-oliva com o tempo

Em 2016, com autorização do Museu Van Gogh em Amsterdã, pesquisadores da Universidade de Antuérpia, na Bélgica, e da Universidade Técnica de Delft, na Holanda, conduziram uma pesquisa utilizando novos recursos tecnológicos que indicaram uma mudança de cor no famoso quadro “Os Girassóis” (1889) de Vincent van Gogh, de amarelo para verde-oliva. Segundo Frederik Vanmeert, pesquisador e doutorando em química pela Universidade de Antuérpia, o efeito ainda não pode ser notado a olho nu, mas pode ficar mais visível ao longo dos anos.

A pesquisa completa foi publicada na revista científica “Angewandte Chemie” e pode ser acessada na íntegra (em inglês) pelo link ao final deste post.

“Os Girassóis”, de Van Gogh, que está, no momento, sendo restaurado pelo Museu Van Gogh em Amsterdã (Foto: Lex Van Lieshout/Agence France-Presse — Getty Images)

Os pesquisadores que examinaram “Os Girassóis” usaram um novo processo de mapeamento químico chamado “Difração Macroscópica de Pó em Raios-X”, que permite detectar elementos presentes em pigmentos utilizados na tela sem ser necessário tocar na obra.

Como muitos pós-impressionistas, Van Gogh utilizava tubos das novas tintas sintéticas formuladas no século XIX que, como hoje sabemos, reagem sob a luz. Das duas tintas amarelas utilizadas em “Os Girassóis”, uma faz parte de um grupo de pigmentos sintéticos fotossensíveis, e foi utilizada no fundo amarelado, nas pétalas, caules e coração das flores.

Essa, porém, não é a primeira vez que especialistas descobrem uma alteração nas cores utilizadas por Van Gogh. As paredes azuis de “Quarto em Arles” (1888) eram originalmente roxas, e em 2013 pesquisas apontaram que a mudança ocorreu devido a uma das tintas vermelhas utilizadas para compor o tom roxo na obra ter tendência a esbranquiçar com o tempo.

Vincent Van Gogh, Quarto em Arles, 1888, óleo em tela, Museu Van Gogh em Amsterdã

Segundo Marije Vellenkoop, diretora de coleção e pesquisa do Museu Van Gogh, em nota ao jornal The New York Times, “a pesquisa ajudou a entender onde, na pintura, o pigmento [fotossensível] foi utilizado, para que possamos saber quais partes observar com mais cautela”.

Além de Van Gogh, outros artistas do século XIX utilizavam o pigmento sintético amarelo em suas telas, o que indica que o efeito de degradação microscópica possa aparecer em outros quadros do mesmo período. Uma outra cópia de “Os Girassóis”, atual propriedade da Galeria Nacional de Londres, passará por uma investigação para comparação, mas de acordo com o pesquisador Frederik Vanmeert, é esperado que o problema também seja detectado nessa versão da obra.

Vincent Van Gogh, Os Girassóis, 1889, óleo em tela, Museu Van Gogh em Amsterdã.

A flor girassol tinha um significado especial para Van Gogh. Ao longo da vida, Vincent pintou uma série de telas de girassóis que, nas palavras do próprio artista, “representam gratidão”. São, no total, cinco quadros compostos por “três tons de amarelo e nada mais”, a fim de demonstrar a possibilidade de criar composições complexas com apenas uma cor. Dois deles foram colocados no quarto de seu amigo Paul Gauguin na casa que dividiram no sul da França, a “Casa Amarela”. Hoje, as séries de “Os Girassóis” estão entre as obras mais conhecidas de Van Gogh pelo mundo e, nas palavras de Gauguin, são “completamente Vincent”.

A cópia analisada pelos pesquisadores da Universidade de Antuérpia e da Universidade Técnica de Delft faz parte do atual acervo do Museu Van Gogh e está, no momento, em restauração levando em conta os resultados encontrados pelo experimento. “Os Girassóis” estará em exibição novamente a partir do dia 21 de fevereiro de 2019.

Fontes:
(Em Inglês) – Chemical Mapping by Macroscopic X-ray Powder Diffraction of Van Gogh’s Sunflowers
The New York Times
Site oficial do Museu Van Gogh em Amsterdã

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