Estátua da cabeça de Tutancâmon é vendida por 6 milhões de dólares, a contragosto do governo do Egito

Enquanto a casa de leilões justifica que a venda é totalmente legal, o governo egípcio afirma que a obra foi roubada do país e deveria ser devolvida.

“Salve a cabeça de Tutancâmon. A história egípcia não está a venda!”, é o que dizia um dos diversos cartazes em protesto contra o leilão da estátua do antigo faraó egípcio Tutancâmon que acontecia na leiloeira Christie’s em Londres nesta última quinta-feira (4).

Mesmo com protestos da população e de oficiais do governo do Egito, o leilão prosseguiu e a peça foi arrematada pelo valor de $4 milhões de libras esterlinas, cerca de 19 milhões de reais.

Com a data estimada entre 1333 a.C à 1323 a.C, a escultura de quartzito representa o deus  Amen com a fisionomia do faraó Tutancâmon, um dos líderes mais famosos da história egípcia.

Em entrevista ao jornal The Guardian, o ex-ministro de antiguidades egípcias, Zahi Hawass, disse acreditar que a estátua de Tutancânmon tenha sido retirada do Templo de Karnak, no Alto Egito, e exportada ilegalmente em 1970. Ele acrescentou que se a casa de leilões Christie’s não possuísse a documentação necessária para provar que a peça deixou o Egito legalmente, a escultura deveria ser devolvida.

Cabeça de Tutancâmon. Foto: Peter Nicholls/Reuters

O ano citado pelo ex-ministro é, também, o ano em que a Unesco instituiu uma convenção internacional para impedir e proibir o comércio de bens culturais adquiridos de forma ilícita, isto é, objetos sem históricos de propriedade documentados. Nos últimos anos, a proveniência de artigos retirados especialmente da região do Egito e proximidades tem sido uma grande dor de cabeça para a diretoria de grandes museus europeus e demais envolvidos na comercialização de antiguidades que estão sendo cobrados a apresentarem documentos que comprovem a legalidade de diversos artefatos históricos.

A casa de leilões Christie’s comunicou que garantiu todas as informações necessárias a respeito dos antigos donos do artefato e que fez o possível para assegurar o título legal da peça. A casa diz, ainda, que a escultura “não é, e nunca foi, objeto de reivindicação, nem foi previamente sinalizada como um objeto de preocupação [legal].”

Em comunicado emitido na quarta-feira, o embaixador do Egito no Reino Unido, Tarek Adel, afirmou que “A venda de artefatos egípcios tão preciosos é lamentavel”. Segundo o embaixador, os leilões refletem “uma profunda falta de respeito aos nossos esforços para impedir que isso acontecesse, bem como um total desrespeito pelas disposições e convenções legais internacionais relevantes”.

Para alguns especialistas, como é o caso de Tatiana Flessas, professora de direito na Universidade de Economia de Londres e especialista em propriedade cultural, a solicitação de devolução da obra foi “um pedido nacionalista, anticolonial, baseado, principalmente, em princípios morais, porém sem uma justificativa legal”, mas acrescentou que caso seja provado que a estátua foi, de fato, retirada do país de origem ilegalmente, a peça deve ser devolvida.

 

Atualização (em 09-07-19):

O governo do Egito e o Comitê Nacional para da Repatriação de Antiguidades (NCAR) informou, nesta terça-feira, que pediu auxílio da Interpol para localizar a relíquia, além de solicitar que o Reino Unido não permita a exportação de nenhum objeto leiloado até que as autoridades egípcias tenham acesso aos documentos solicitados.

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